domingo, 10 de fevereiro de 2008

Carta ao Presidente da Republica


Depois dos tumultos e de menores terem medido forças com Estado Moçambicano, na sequência da subida do preço do Chapa, Carlos Serra escreve uma Carta ao Guebuza.


Depois de ter prometido aqui , Dr. Carlos Serra deixou aqui a carta que segue abaixo, dirigida ao presidente da república. Lembre-se aqui uma outra carta escrita pelo jovem deputado da AR Manuel Araújo, também dirigida ao PR e todas a propósito da "Super Terça Feira". Desfrutem

Senhor Presidente
O ano passado, quando das explosões do paiol de Malhazine, escrevi- lhe a minha terceira carta . Agora, após o sismo social na periferia de Maputo, cá estou de novo a escrever-lhe uma carta, esta é sétima desde 30 de Janeiro de 2007 .

Presidente: a gente humilde desapertou os cordões à bolsa para poder ter festas melhoradas no fim de 2007, como sempre, afinal, faz todos os anos. Entrou em Janeiro com a expectativa de um ano melhor, como em todos os Janeiros entra, mas com a bolsa minguada e a fazer contas para, entre outras coisas, como também sempre acontece, tratar da inscrição dos filhos nas escolas, da compra de livros e de outro material escolar, de fardas, etc

E foi quando fazia essa e tantas outras contas do orçamento familiar, que lhe caiu em cima, a 5 deste mês, a notícia do aumento dos preços do pão e dos chapas. Tudo muito rapidamente, Presidente, com a eficácia inexorável de um sismo tecnocrático. E, depois, a gente humilde revoltou-se, deu origem ao sismo social de continuidade, a gente humilde que passa dificuldades de sobrevivência diárias, muita da qual não tem 13.º mês, a gente humilde que nada sabe dos preços do trigo e do combustível no mercado internacional, que apenas sabe que a sua vida tem sempre um ponto de interrogação diário. Enquanto isso, andou e anda outra gente, Presidente, dizendo que o nosso povo é pacífico, que em si nada teria feito perante o sismo tarifário e a frieza burocrática do governo se não fosse a mão perversa de uma agenda externa, de uma agenda má. Por outras palavras, gente que passa ao povo um atestado de vegetal, resignado e comestível.

Ora, Presidente, foram homens, mulheres e crianças quem se revoltou, no sismo social sobrevindo estavam lá elas, as mulheres, aquelas que gerem lares e orçamentos e pontes sociais; as crianças e os adolescentes, aqueles que andam nas escolas, no comércio informal ou que, no caso dos mais velhos, estão desempregados. Chamar-lhes arruaceiros, marginais, é criminoso.

O ano passado, o Presidente assumiu que a culpa foi "nossa" a propósito das explosões de Malhazine. Mas este ano nenhuma culpa foi assumida por quem quer que seja do seu executivo.

Andaram ministros multiplicando-se pelos órgãos de comunicação em sábias dissertações sobre os preços internacionais. Mas não vimos ministros a fazer o que Samora Machel dizia em 1974 que deviam fazer: estar em permanência com o povo, ouvi-lo, dialogar com ele, deixar o conforto dos gabinetes.

E, Presidente, no dia 7, em medida apressada, tardia e demagógica, os TPM, empresa pública, puseram na rua os seus autocarros de luxo para tentar minorar a revolta, numa situação em que, em termos de transportes, tudo foi entregue ao processo negocial com os chapistas. Autocarros que, como o Presidente sabe, não foram comprados para servir o povo.

Presidente: há coisas que não podem ser privadas, coisas que um Estado deve assumir imperativamente. Pão e transportes condignos a preços subsidiados são duas dessas coisas. Dir-me-á que isso é quimérico, que o mercado não permite isso. Seja. Mas deixe-me ao menos ser isso, quimérico.

Demitir-se o Estado do seu papel de Estado social é demitir-se do Povo, é abandoná-lo. Abandoná-lo, é deixá-lo refém de discursos tecnocráticos, de caminhos estatísticos, é caminhar para a perda de legitimidade

Acusamos o rio de violência, Presidente, mas esquecemo-nos muitas vezes das margens que o comprimem; acusamos o povo de ser tumultuoso e esquecemo-nos de nos perguntar se não somos nós os tumultuadores.

O povo de Maputo guarda ainda a memória dorida das explosões de Malhazine e guardará agora a memória da revolta de 5 de Fevereiro. De alguma forma criou-se - permita-me a expressão - uma zona sismológica social permanente. E essa zona não poderá, agora, ser esquecida nem molestada. Tanto mais que Maputo é bem mais do que o Sul de Moçambique: estando aqui gente de todo o país, a cidade é uma espécie de concentrado nacional

Perdoe-me tê-lo incomodado uma vez mais

Respeitosos cumprimentos

Carlos Serra









2 comentários:

Ivone Soares disse...

Alô ilustrissimo. O nelson convidou-me para visitar teu blogue. Gostei da frontalidade. Um abraço, Ivone.

Lázaro M.J.D.M Bamo disse...

Bem vinda ao meu cantinho de masturbacao intelectual, tambem ja dei volta pelo seu catntinho de reflexao. Bem vinda a casa e parabens pelo seu progresso na vida politica.

L.B